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O parto com que sonhei escapou-me por entre os dedos...

Atualizado: 22 de Fev de 2018

O parto com que sonhei escapou-me por entre os dedos. Deixei-o fugir. Aquele em que navegávamos calmamente através da dor, os três juntos, até que tu nascias tranquilo e vinhas para o colo da mãe. Aquele em que ficávamos no conforto do nosso lar até ao último instante e íamos para o hospital apenas para te ter. Sem drogas, sem intervenções, sem pressas.

Deixei-me apanhar pela bola de neve, pelo ciclo vicioso de procedimentos e protocolos que transformam o que deveria ser um momento mágico da natureza num acto hospitalar e patológico. ​ ​Não tive força suficiente para remar contra a maré, contra a convenção social, e o nosso momento escapou-nos. Desculpa-me meu filho...


Uma condição que afeta cerca de 1 em 160 mulheres grávidas chamada PUPPP (Pústulas e Placas Urticariformes Pruriginosas da Gravidez) veio abalar o 3º trimestre de uma gravidez até então maravilhosamente saudável e tranquila. Uma herança da mãe, que sofreu do mesmo quando estava grávida de mim. A tranquilidade foi substituída por noites de insónia devido ao prurido mais intenso que alguma vez senti, disseminado por todo o corpo na forma de placas vermelhas e bolhas. Muitas noites de choro, sem dormir...Muitas idas ao hospital com diagnósticos falhados e terapêuticas ineficazes...


Finalmente uma ida às urgências de dermatologia confirmaram o diagnóstico que suspeitava: é uma PUPPP e só passará depois do parto. "Ok filho, então só tens de nascer rápido para a mãe poder descansar...".

Mas ele queria o seu tempo...

Grávida de 40 semanas e 3 dias e exausta pelo comichão dei-me por vencida. Eu e o João, que já não me podia ver mais naquele sofrimento. "Isto não é vida para ninguém, vamos para o hospital resolver isto...".

E fui. Apavorada, confusa, exausta...Por um lado sabia o quão importante era saber esperar pelo nosso momento. Por outro, não queria ter de passar nem mais um dia ou noite naquelas condições...Não aguentava mais...

7h50 Chegados ao hospital, entramos no ritmo normal de umas urgências obstétricas que estão cheias pela grande afluência (mudança de lua, lua cheia...). Esperamos na sala de espera que termine a troca de turno.

9h30 Fui observada. "A menina não sai daqui hoje. Nestas condições vamos induzir...". Um toque altamente doloroso para descolamento de membranas. "Agora espera na sala de espera porque estamos sem quartos para fazer a indução."

E eu esperei, apavorada..."Será que tomei a decisão certa? Quão difícil será um parto induzido?"

As horas a passar, a ansiedade a crescer...Muito cansaço, má alimentação...Muitas horas passaram e nada de quarto para fazer a indução... ​

18h30 Miraculosamente as contrações começaram. "Oh que dor boa! Já não vou precisar de ser induzida!..." E começamos a nossa viagem de contração em contração, contando os minutos até à próxima e controlando a respiração. Entre as contrações conseguimos ainda brincar e manter a boa disposição, pelo menos no início...

22h00 "Joana, já temos quarto. Vamos internar para a indução. O marido não pode ir, só a apartir das 12 horas de amanhã." 

Pânico! "Mas eu não consigo fazer isto sozinha! Eu preciso dele! E acho que já não preciso de indução porque estou com contrações de 4 em 4 minutos." "Isso é o que vamos ver..."

​Mais um toque doloroso. "Ok, 3 centrímetros, colo molinho. Não precisa de indução. Pode voltar para a sala de espera, depois chamamos para o bloco de partos."

Mais espera e as contrações cada vez mais fortes e mais próximas. Alguém me disse que imaginava as contrações como as ondas do mar, que vêm e rebentam com força, uma atrás das outras. Uma descrição perfeita. Em cada contração tentei manter o foco, controlar a respiração, esquecer o cansaço e apertei a mão do João com muita força...

23h00 "Joana, temos vaga no bloco de partos. Vamos entrar mas o marido só vai depois." 

Mas porque é que insistem em separar-me dele? Estamos nisto juntos, eu preciso dele porque sozinha já não penso direito...

Lá fui, contrações de 2 em 2 minutos, com dores nos intervalos. Mais um toque doloroso...Quantas mais vezes vão querer verificar-me? "Quatro centímetros de dilatação, ainda temos tempo. Tome um duche, faça os microclisteres e já mando alguém para epidural. Vai querer, não vai?" 

"Não sei...Já não sei nada, estou tão cansada, quando é que o meu marido pode vir ter comigo?" ​

00h00 Sozinha naquela sala fria e impessoal, quase a perder o controlo da respiração que até então tinha conseguido manter e a sentir-me tão exausta pensei..."Não aguento mais...Só quero que isto pare por uns minutos para eu poder fechar os olhos e descansar...Afinal não sou tão forte como pensava..."

00h30 "Joana, viemos dar-lhe a epidural. Vai querer, não é?"

Eu apenas grunhi, já não conseguia falar. As contrações estavam a evoluir rápido, de minuto e meio em minuto e meio. Pensei que se o João estivesse lá talvez ele me ajudasse a decidir com bom senso, mas sozinha eu não aguentava mais...Façam o que quiserem...

Recebi epidural e finalmente dormi... ​


​01h00 Finalmente deixam o João juntar-se a mim na sala de partos. "Aceitei que me dessem epidural, desculpa...". "Não faz mal amor, fazemos o que tiver de ser. Descansa...".

02h30 Três médicos entram de rompante pela sala e olham preocupados para o monitor do CTG. "Há algum problema?" - pergunto baralhada. "O seu bebé parece não ter gostado da epidural." Pelo canto do olho vejo frequências cardiacas baixas mas estou tão atordoada com a epidural que nem me consigo preocupar. Mais um toque. "Seis centímetros, é melhor romper a bolsa". E outro toque para romper a bolsa.  

"Então mas quem foi a enfermeira que colocou este soro? Este soro está mal!" Em vez de soro glicosado deram-me outro que não percebi qual. Não condeno a enfermeira que o fez. Quando cheguei ao hospital naquela manhã ela já lá estava de serviço e por lá continuou até à proxima manhã. Quem pode ser condenado por errar depois de tantas horas de trabalho?

03h30 O efeito da epidural passou e as dores voltaram fortíssimas, de minuto a minuto. "Chamamos a enfermeira?" - pergunta-me o João. "Espera, eu aguento mais um bocadinho...Não, está muito forte, chama a enfermeira."

A enfermeira veio. Mais um toque, muito muito doloroso...É difícil concentrar-me na respiração, na dor das contrações e na dor que elas provocam ao tocar-me. "Sete centímetros, vou dar-lhe mais um miminho." Um reforço na epidural, ao qual mais uma vez não tive força para dizer que não, o meu cérebro estava bloqueado...A dor abrandou.

04h00 Uma médica e uma enfermeira entram pela sala, e olham para o monitor mais uma vez preocupadas. Mais um toque. "Dilatação completa. Joana vamos tirar o seu bebé porque ele já não está a gostar de estar aí dentro." Um esvaziamento de bexiga (introduzem um catéter na uretra e recolhem a urina para um saco - procedimento que me deixou sem controlo no meu esfíncter nos 5 dias que se seguiram...)

"Quando sentir vontade de fazer força, faça força cá em baixo."

Mas eu não sentia nada. Tinha as pernas dormentes e perdi o controlo dos meus músculos devido à epidural. Fiz força, o mais e melhor que consegui mas sem saber se era essa a força que era precisa. 

"Mais força. mais, mais, mais..." Mas eu não sabia o que estava a fazer, não sentia nada...

Duas enfermeiras debruçam todo o seu peso sobre o meu estômago e pedem-me para fazer força. Eu tentei...

"Está a ir bem Joana mas tem de fazer mais força se não vamos ter de usar uma ajuda..."

Dei tudo de mim, daquilo que me foi permitido...Tão arrependida que já estava de ter aceitado a epidural. Eu queria sentir, queria controlar a situação e ajudar o meu bebé a nascer mas não era capaz...

"Ele só desceu um milímetro, vamos ter de usar ventosa porque o seu bebé não está contente...O pai vai ter de sair..."

Tive muito medo. Tive vontade de implorar que me cortassem toda, que fizessem o que fosse preciso para o tirar de lá...

05h00 Uma médica aplicou a ventosa, outra fez-me episiotomia sem hesitar. "Faça força agora." Senti o bebé rodar dentro de mim e fiz muita força. Senti a cabeça a passar, um misto de dor e de alívio. "Mais um bocadinho e o seu bebé nasce!"

05h11 O meu bebé nasce. E chora, chora muito...Está quente e tem a pele macia e eu sinto o peito cheio de amor e choro muito.

Mas rapidamente levam-no. "Vamos levá-lo para analisar."

E eu sinto tanta dor. Eu quero-o aqui no meu peito. Oiço chorar compulsivamente e nada posso fazer para o acalmar. Quero o meu bebé!

Após alguns minutos, que pareceram eternos, finalmente colocam o meu bebé no meu peito. O momento com que sonhei nos últimos meses finalmente chegou. Aquilo que se sente não pode ser descrito, tem de ser vivido... ​


​Cosem-me a episiotomia a sangue frio durante uns 40 minutos. Sinto cada espetar de agulha e cada passar de linha. Não digo nada, não me queixo. Não quero saber, eu tenho o meu bebé nos braços e estou feliz...


"Joana, parabéns. Portou-se muito bem. Está contratada para uma próxima!" - felicita-me a médica. Eu questiono-me se realmente me "portei bem". Eu não consegui fazer o meu bebé nascer sem ajuda, como é que me portei bem?

Coloco-lhe a mão no ombro e agradeço-lhe comovida. "Muito obrigda por tudo." Apesar de tudo estava, e continuo, muito grata à equipa por fazer nascer o meu bebé são e salvo. A equipa médica foi sensacional, seguiu corretamente os seus protocolos. Protocolos aos quais eu não me queria ter sujeitado, mas uma mistura de azar, cansaço e fraqueza emocional assim o ditaram. Estou desiludida comigo mas vou perdoar-me com o tempo. ​

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